7 de abril de 2017

Bem-aventurados os misericordiosos

A misericórdia exige um olhar puro. Onde existe espírito de julgamento e condenação. Onde a pessoa “non grata” é olhada - superficialmente - a partir de um momento infeliz de sua vida, e não a partir da plenitude da sua existência e possibilidades, a misericórdia não tem nenhuma oportunidade de acontecer. Num ambiente crivado de críticas e julgamentos, só o caos floresce. Só a escuridão frutifica.



É muito fácil apontar o dedo e falar o que vem na boca. É mais fácil ainda - isso acontece o tempo todo - chamar a nossa opinião de verdade. Portanto, se desejamos “fazer” alguma justiça, precisamos primeiro abrir mão das nossas manias e facilidades de julgamento. Precisamos abrir mão das nossas (supostas) verdades. Deus nos pede isso. Cristo nos pede isso. (Somos cristãos?). O Espírito de vida, verdade e justiça, insistentemente, nos pede isso. 



Julgar e condenar é próprio do velho homem, que não conhece a Deus. Amar é próprio do novo homem. Antes de abrirmos a boca para falarmos isso ou aquilo de alguma pessoa – ou de um grupo de pessoas – importa-nos nascer de novo. Importa se demorar diante do espelho da própria consciência. A verdade é que - antes de se enxergar - ninguém enxerga o outro. E quem se enxerga, não julga ninguém. Por razões óbvias.



Para sermos misericordiosos, precisamos nos desfazer do espírito de crítica, julgamento e condenação. Precisamos descer do pedestal da nossa suposta superioridade moral. Precisamos olhar com amor – afinal é o amor, caso alguém tenha se esquecido, que nos torna reconhecíveis como seguidores de Cristo. Aquele que não ama não conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece coisa alguma. Aquele que não ama é arrogante, orgulhoso e só pensa em si. Na linguagem do Apocalipse de João, é cego, surdo, pobre, nu e miserável.



Saber alguma coisa sobre a vida de uma pessoa, não é conhecê-la. Conhecer alguém exige mais do que ouvir boatos. As pessoas só podem ser conhecidas pela via do amor. Tal conhecimento só é possível a quem se coloca no lugar do outro. Para conhecer o outro não basta olhar de longe. É preciso se aproximar, ouvir a sua história e se colocar no lugar dele. É preciso ser misericordioso. A misericórdia abre o nosso coração para a “verdade verdadeira”, muda o nosso olhar e desfaz os nossos julgamentos precipitados.



Compreendemos melhor quando abrimos mão da nossa tendência de julgar. Compreendemos melhor o comportamento e as palavras das pessoas que amamos. Por isso, o mandamento de Deus não faz rodeio e vai direto ao cerne da questão: Amar a todos igualmente, inclusive os inimigos. Porque quem ama – esse é o dom da misericórdia -, compreende a sina do outro. Pode não concordar com ele, mas o compreende... E ao invés de julgar, oferece a sorte de uma nova oportunidade de recomeçar a vida.



Quem julga e condena impõe ao outro algo de seu. Deste modo, a verdade sobre a nossa (rápida) tendência para julgar o outro, fala mais sobre nós do que sobre a pessoa que criticamos, julgamos e condenamos. As nossas críticas, julgamentos, implicâncias e "verdades", revelam os nossos preconceitos, intolerâncias, neuroses, traumas e dificuldades de lidar com o que não é parecido com nós. Revelam o quanto nós ainda somos infantis e limitados. Revelam a céu claro, para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, a atrofia da nossa consciência e a angústia - quase escrevi hipocrisia - da nossa alma.



Assim, esvaziar-se completamente dos nossos preconceitos é o caminho para uma vida de misericórdia, e também um passo muito importante para começarmos a olhar para nós mesmos, e, quem sabe, nos tornarmos pessoas melhores. Com efeito, o espírito de misericórdia sempre nos transforma em pessoas melhores, mais conscientes, mais justas e menos infantis...



É isso. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles sabem que não são melhores do que ninguém e reconhecem que igualmente precisam da misericórdia de Deus e dos seus irmãos de humanidade.
_VBMello