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4 de dezembro de 2016

Francamente, esse Jesus é um estraga-prazeres!


O perdão cristão encontra momentos particularmente tocantes no Novo Testamento. Meu preferido é a história da adúltera (João 8). Uma mulher foi surpreendida em adultério. Foi flagrante, não há escusas. Havia testemunhas. Se o jogo de palavras não fosse excessivo, até poderíamos dizer que foi com a “boca na botija”. Alvoroço total na comunidade. Que delícia encontrar um bode expiatório. Uma mulher que se entregou por desejo e amor a um homem que não era seu marido. Um ser humano que buscou felicidade fora da regra. Todos aqueles que desejaram isso ano após ano e não tiveram nem oportunidade e nem coragem, agora apontavam o dedo furiosos, e felizes. Ela ousou, ela fez, ela deve pagar. A lei é clara: apedrejamento.

Matar com pedras é uma morte simbólica. Permite a todos atirarem parte da sua raiva na pessoa que se desviou. Um enforcamento só dá esse prazer ao carrasco. Guilhotinar é mecânico. Fuzilar é quase asséptico. Apedrejar é que é gostoso. Posso, pedra após pedra, ir vencendo o mal que eu vejo em mim, mas que o outro exerceu. Apedrejar é exorcizar. Com força, atiro minha pedra e acerto, de preferência na parte que mais odeio do pecador. Apedrejar é uma sociedade anônima de ódios com dividendos para todos os investidores. A adúltera deve ser apedrejada.

“Mas por que apenas matar esta pecadora? Poderíamos também levar o caso a Jesus”, dizem fariseus e doutores da Lei. Ele seria confrontado com um caso claro e sem possibilidade de interpretação. Jesus deveria participar da sociedade anônima. Isso significa que a fama de um Jesus que perdoava e pregava o perdão já incomodava muita gente. A hermenêutica de Jesus a favor de um esgarçamento da Lei era, certamente, notória. O episódio teria ocorrido depois do Sermão da Montanha, quando o programa moral de Jesus já estava enunciado.

O episódio demonstra duas raivas dos moralistas. Uma é contra a infração do código. Essa raiva se volta contra a mulher. O outro polo de ódio é contra quem quer diminuir as penas, interpretar as regras e perdoar. Esse sentimento se descarrega contra Jesus. Dois coelhos, uma só cajadada. Que dia glorioso para a virtude farisaica. Se vivos, os fariseus teriam pedido a redução da imputabilidade penal para sete anos, transmutando em preocupações sociais seu ódio.

A cena é bastante teatral. Os fariseus arrastam a mulher até Jesus. O Nazareno, quase como em um roteiro, ignora os acusadores. Jesus, o Supremo Bem, não ouve o que falam de mal sobre o mau ou a má. Ele é surdo à acusação e fica escrevendo no chão. O que escreve? Nada sabemos. Sempre que leio sobre essa cena penso nos alunos entediados com a aula rabiscando uma folha em branco (há alguns anos, hoje seria digitando em aparelhos). Estaria Jesus demonstrando tédio com a acusação? Falaria dentro do mestre uma voz com a frase: “Oh não, estes fariseus de novo, não aprendem nunca…”? Não podemos afirmar isso. Nunca se disse nada sobre o tédio de Jesus. Seria heresia supô-lo?

Jesus escreve, indiferente ao grupo ruidoso. Seu protagonismo é dado pelo silêncio. O Evangelho diz que Jesus se endireitou, pressupondo que antes estava curvado, ou acocorado escrevendo, em todo caso, em uma posição abaixada. De repente, uma frase: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (João 8:7). Frase bombástica! Apedrejar seria confessar o orgulho de se presumir acima do pecado e da humanidade. Isso nem os fariseus poderiam dizer, ainda que pudessem pensar. Foram se afastando. O Evangelho dá mais uma pista — a retirada seguiu ordem cronológica: foram saindo a partir do mais velho. Quanto mais idade, mais memórias de pecados e mais remorsos, mais consciência pesada. Um a um, todos se retiraram. Restavam Jesus e a mulher. Sempre imagino essa cena em um palco. Talvez tenha sido escrita com esse propósito.

Vejam uma diferença: no primeiro século da nossa era, mesmo entre fariseus, era imperativo reconhecer-se pecador. No nosso século, tempo de autoajuda, de estímulo ao positivo e ao orgulho de si, em época de reforço dos narcisos pelo ensino totalmente lúdico e pais culpados, se Jesus fizesse a mesma pergunta, talvez tivesse chovido uma saraivada de pedras sobre a pobre mulher. Hoje, há poucos pecadores e culpados. Hoje, a culpa é sinal de angústia mal resolvida, sentimento de pecado pode ser tratado com psicanálise e lítio. O pessimismo sobre a natureza humana desaparece em redes sociais. Felizmente para a adúltera, aquele momento era outro.

Jesus sozinho com uma mulher aos pés; o mestre faz uma pergunta retórica, como se fosse indiferente de fato a tudo: “Onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?” Ela reforça que não. Então Jesus diz que também não a condenará. Mas o retorno da adúltera a teshuvá tem uma condição: não pecar de novo. Quando Jesus diz “não tornes a pecar”, está dizendo que sabe que ela pecou, que o depoimento dos fariseus era verdadeiro, que não era uma calúnia. Jesus tem plena consciência: era uma adúltera e foi pega no ato. “Não tornes a pecar” mostra que o perdão é efetivo e incide sobre um erro real e cometido. Mais: adúltera, ao longo do capítulo 8 de João, em nenhum momento ela nega isso ou diz que é inocente (ah, como estamos longe desse dia em que a desculpa pronta não brotava magicamente dos lábios de todos). A adúltera sabe que adulterou. Jesus sabe que a adúltera adulterou. Todos sabem do adultério. Ninguém o nega. Perdoar não é esquecer nem dar livre passe para mais erros. É só o reconhecimento de que houve um erro e que há a disposição para que não ocorra de novo. Perdoar é só reconhecer a humanidade do pecador, nunca é uma defesa do pecado.

No capítulo 8 de João, Jesus dá mais uma pista importante. Ele afirma ser a luz do mundo (versículo 12) e, mais importante, acusa os fariseus de julgarem segundo a carne e que ele “a ninguém julga” (Jo 8, 15). Talvez seja o mais importante trecho sobre perdão da Bíblia. Jesus, o filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade, o Messias, o homem-Deus encarnado, diz que não julga ninguém. Ele, a luz do mundo, é o único que poderia definir a treva, já que todos os seres não são luz; somos apenas iluminados ou não. Jesus, a luz do mundo, não julga. Fascinante esta passagem: uma derrubada de quase tudo que a tradição acredita sobre punição, moral, castigos eternos, fogo e danação. Deus é amor, a frase síntese de João: “Quem não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor” (I Jo 4, 8).

Vamos, então, piorar o desafio de Jesus aos fariseus: aquele que nunca julgou alguém atire a primeira pedra. Agora sim, não sobraria ninguém.

Temos um dado final nessa história edificante. O capítulo termina no versículo 59 com um fato pouco explorado pela tradição. Depois de todo o debate sobre culpa e perdão, depois de ter se anunciado a luz do mundo, depois de dizer que não julga ninguém e ter humilhado os ávidos apedrejadores, enfim… Tentam apedrejar Jesus. Jesus escondeu-se, fugiu e evitou que a religião da cruz se tornasse a religião da sagrada pedra. Não sabemos se ele se ocultou de forma não natural ou se saiu correndo. Sabemos que saiu e evitou sua lapidação.

O último bastião do ódio é contra quem perdoa. Não castigar transfere a raiva para o que perdoa. Aparentemente, o castigo expia, escoa, concentra e ajuda a diminuir a raiva coletiva, ou, pelo menos, o castigo desvia a raiva do pecado para o pecador e sua punição restabelece a ordem universal. Quando eu não puno, talvez, o mal se torne difuso e incomode muito. Como é próprio da nossa espécie, odiar reúne muito mais desejo do que amar ou perdoar. Talvez por isso mesmo, sendo amor, Jesus define que não julga. Amor não julga. Como somos humanos e o amor não chega a ser todo o nosso ser, julgamos muito, com prazer, todo dia, estabelecendo no julgamento nossa superioridade, pois só julgo meu inferior moral, ou pelo menos julgo para que alguém se torne meu inferior moral.

O julgamento e a punição acalmam. Deve ser o silêncio, estranho e profundo que se segue às muitas descrições que temos das execuções públicas. A multidão grita, apupa, joga coisas. A cabeça cai na guilhotina e o delírio é absoluto. Depois, em silêncio, retiram-se para casa. Passou o crime, foi punido o criminoso. Expiou-se o pecado. Restabeleceu-se a ordem. O que fazer? Ou tentar apedrejar quem perdoou ou achar outro pecador. Para sorte de todos os fariseus, na tenda ao lado haverá outra adúltera, outro sodomita, um prevaricador e um novo ladrão. Que sorte! Sem eles seríamos obrigados a pensar em nós mesmos. A pedrada na adúltera era para nocautear nossa consciência. Graças a Jesus, dessa vez, a pedra retornou e atingiu todos.

Sejamos francos: o trabalho de um fariseu nunca termina. Francamente, esse Jesus é um estraga-prazeres!
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Pecar e perdoar: Deus e o homem na história - [Leandro Karnal]

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