17 de março de 2017

Vem o fim, o fim vem...



















Como quem sonha um sonho terrível
Sozinho, indo e vindo, órfão de pai e mãe
Achei-me tateando na escuridão
E andei sozinho na imensa floresta
Das cento e quarenta e quatro mil árvores
As últimas que restaram do grande incêndio
Que sacudiu, ameaçou e varreu a terra
E queimou até os horizontes longínquos


Caminhando entre restolhos e escombros
Na vastidão desolada que restou
Procurei por um irmão, e não achei
Implorei por pão e ninguém me ouviu
Até as maiores distâncias que as vistas alcançam
Tudo é deserto.... Os mares estão mortos
A terra geme.... O céu permanece em silêncio


A terra está coberta de cidades em ruínas
Escombros de antigos castelos, jazem
Amontoados sobre a areia escaldante
Morada de escorpiões, serpentes e ratos


Não há mais flores nos campos verdejantes
Não há mais campos verdejantes, nem céu azul
Nem pássaros cantando nos galhos das árvores
As estrelas do céu foram violentamente abaladas


Não há nenhum trem na estação
As cidades estão desertas
Os templos estão vazios
Secou o vinho, acabou o pão
Não há festas, nem alegria
Nem corações exultantes
Há um gosto amargo na boca
E uma tristeza profunda no olhar


Cambaleantes de ansiedade, bêbados de desespero
Como ovelhas amedrontadas, perdidas e abandonadas
Escondidos nas fendas e buracos da terra
Os homens são raros e difíceis de encontrar
A terra está cheia de ameaças, cinzas e fogo
Ondas de empáfia, violência e indiferença
Se encontram num terremoto de terror
No jogo da vida, homens perdem a alma
E negociam e penhoram o próprio coração


Almas, sonhos, esperança, fé, amor e vidas
Tudo tem preço, tudo pode ser comprado
Tudo pode ser roubado e barganhado
Basta ter desejo, paixão e força de vontade
Não se leva em conta o caráter de ninguém


A terra está profundamente doente
Como no dizer do profeta Oséias
Só prevalecem o perjurar, o mentir
O matar, o furtar, e o adulterar
Há violência em cima de violência
E homicídios sobre homicídios
Ultrapassam todos os limites!


Dos antigos dias de retidão, fé, amor e esperança
Quando o caráter era a maior riqueza de um homem
Já não se fala; esquecidos no passado
Não fazem mais sentido, agora que a lua
Paira sobre nós, vermelha como sangue


No deserto infinito, uma mulher vestida de branco
Chora e corre, perseguida por um dragão
Muito alto, acima das nuvens de escuridão
Uma águia paira de asas abertas e olhar triste















O mundo arde em incêndios
As fontes de água secaram 
Os cervos já não encontram 
Lugar onde saciar a sede 
Sem ter para onde ir
A vida chora e agoniza
Em prantos, desesperado
O mundo grita e implora 


E o clamor dos párias e desajustados
A multidão dos que não tem voz
Os filhos angustiados e desorientados
De uma terra corrompida e amaldiçoada
Onde a semente de justiça, nunca vinga
Se perde no infinito da frieza do mundo


Como uma doença muito contagiosa
Por toda parte, o mal avança e prospera rápido
O diabo arrebanha almas e manipula mentes
O exército das trevas cresce e se multiplica
Um espírito de corrupção, toma o poder
E um espírito de alienação, guia o povo
Que ri, enlouquece, festeja e aplaude...
A mentira finca raízes no coração do mundo


Todavia, acima da multidão de famintos
E do choro que varre o acampamento
Dos aflitos e desesperados da própria vida
Acima do colapso de todas as coisas
Além da noite escura, solitária e fria
Em algum lugar muito distante
Acima dos homens e das feras
Acima das nuvens do céu
Acima dos reinos deste mundo
Onde os nossos olhos não alcançam
Onde o inferno termina e a morte não tem poder
Já se pode ouvir o tropel dos cavalos
O som de trombetas e o rilhar de espadas
Um amanhecer se aproxima e faz a terra
Gritar, pular, chorar e estremecer...
Um solitário profeta se aventura pela cidade e grita
O fim vem, o fim vem... E é imediatamente apedrejado
_VBMello