5 de junho de 2017

Morte espiritual

Se jesus tivesse transformado pedras em pães, como, em momento calculadamente oportuno, sugeriu o diabo, teria comido pão e saciado a sua fome à custa da derrota de sua alma. Definitivamente, um milagre que se compra a preço de alma, é sempre caro demais, desnecessário mesmo. Jesus, como era de se esperar, não aceitou a sugestão do diabo, e com isso, nos ensinou uma lição preciosa. A alma não é negociável. Não pode ser vendida, apostada ou negociada. Ela é o tesouro maior do homem. Ela é aquilo que o homem é. O centro a partir do qual, sem exceção, todas as potências humanas, a um só tempo, buscam e encontram, força, equilíbrio, criatividade e inspiração para crescer, florescer e frutificar em liberdade. A alma é nossa identidade espiritual. Aquilo que nos faz humanos. Negociá-la numa disputa com o diabo, é colocar-se em risco de uma perpétua alienação.



O diabo fez o seu costumeiro trabalho. Tentou Jesus três vezes. Ofereceu pão. Ofereceu poder. Ofereceu o mundo. Todavia, quem é de Deus sabe, a soma de todas essas ofertas ainda é pouco, ou nada, diante do valor da alma. Porque a alma, se alimentada e cultivada na presença de Deus, cresce imensamente em valor, a ponto de valer mais do que o mundo inteiro. Nada é superior ao valor de uma alma. A maior fortuna do mundo, ou a soma de todas as fortunas do mundo, ainda é coisa muito insignificante, diante do valor manifesto de um homem de alma. Um homem de alma pura, coração humilde e espírito misericordioso, coisa rara em nossos dias, vale mais do que o mundo inteiro.



O texto diz que Jesus estava debilitado pela fome. Uma terrível e cortante fome de quarenta dias. Era visível o seu sofrimento. O diabo, sempre oportunista, tentou se aproveitar da fraqueza de Jesus. Ele sempre tenta se aproveitar dos nossos momentos de fraqueza. Mas Jesus, mesmo faminto, não transformou nem uma pedra em pão. Ele se manteve muito acima da calculada proposta do diabo, porque sabia que existe outro tipo de fome. Uma fome, talvez, até pior do que a fome de pão. Pior, sim, muito pior, porque a fome de pão pode ser saciada, mas essa fome não pode ser saciada por pão algum. Uma fome tão atroz, porque é espiritual, que continua, mesmo quando estamos com o estômago cheio. Uma fome de significado, ou, mais especificamente, fome de Deus. Fome que acontece e permanece, mesmo quando o homem encontra-se rico de tudo, tomando banho quente, dormindo em cama macia e tendo diariamente, diante dos olhos e ao alcance das mãos insaciáveis, uma mesa sempre farta e variada. Se tivesse transformado as pedras em pães, então, aí sim, teria sofrido a mais atroz de todas as fomes. A fome de Deus. Uma fome como a do rei Saul, que mesmo sendo rei e tendo tudo, não tinha paz, porque não tinha o Espírito de Deus.



Depois de quarenta dias no deserto, o corpo de Jesus cambaleava de fome, mas a sua alma florescia como o jardim do Éden, cheia de graça e da presença de Deus. Ele alcançou aquele ponto, onde, esgotadas todas as forças do corpo, o homem permanece de pé unicamente pela fé em Deus. A fé pura no Deus que renova as forças do cansado e alimenta o faminto, manteve o espírito de Jesus, firme e inabalável, diante das cruéis e covardes investidas do demônio. Sozinho no coração do deserto, cruzando um profundo vale de sombra e morte, em tudo ele estava atribulado, mas não angustiado. Não pereceria no deserto, como milhares pereceram, mas alcançaria a cidade de Deus, onde mana leite e mel. Perseguido, desamparado e abatido, mas não destruído, ele permaneceu de é diante do diabo. Nas profundezas do seu ser, onde diabo algum chega ou vê, não havia lugares vazios. A sua alma permaneceu, o tempo todo, calma e transparente como um rio que corre manso entre as árvores de um bosque florido. Dúvida alguma surgiu para ofuscar o seu pensamento. Angústia alguma sufocou o seu coração. Cheio do Espírito Santo, ele estava pleno. Rios de água viva corriam do seu interior. Estava saciado, pois nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Ele jamais sofreu a dor atroz daquela fome que nunca morre e que nos persegue, nos alcança e nos prostra sempre, ao menor abalo emocional, em profundo estado de inquietação e ansiedade, mesmo quando a gente come o melhor dos pães e dorme na melhor das camas. Faminto de pão, todavia abastecido de um pão superior, que vem de Deus, ele estava em paz e a sua alma estava satisfeita e rica daquela serenidade das coisas que vem do Espírito de Deus. Em algum lugar acima do firmamento, podemos imaginar, legiões de anjos de Deus, aguardavam o momento oportuno para descer e cuidar dele, servindo-o. Ele não tinha qualquer acordo para fazer com um miserável anjo caído. Aquele que jamais resistiu a Deus, resistiu ao diabo, e o diabo fugiu da presença dele.



Com o seu exemplo, Jesus nos ensinou - de uma vez por todas - que para passar fome, não é preciso ter falta de alimento. Basta se afastar de Deus, e viver de dar atenção ao diabo e transformar as suas pedras em pães.



O mundo está cheio de gente assim. Homens e mulheres que aceitaram as ofertas do diabo, e construíram a vida sobre areia movediça. Iludidos por alguma perspectiva errada da vida, considerando apenas o ponto de vista materialista da existência, cheios de orgulho e ingratidão, imaginando-se sábios e espertos, negociam a própria alma em troca de um bocado de fama, poder e (ou) riqueza. Insensíveis ao sofrimento dos outros, construíram grandes celeiros e estocaram muitas riquezas para a alma. Todavia, enquanto faziam isso, por só pensarem em si, perderam a alma, ferida pela cobiça, adoecida pela insensibilidade do coração, e morta pelo inesgotável amor ao dinheiro.


                                                                   
Vez ou outra olhando para o céu, mais por hábito do que por convicção ou temor de Deus, essas pessoas de coração obstinado, viciadas em construir sobre fundamentos alheios e colher onde não plantaram, como se fossem os donos do mundo, seguem caminhando pelo caminho largo da crueldade e da insensibilidade, entesourando ira contra elas mesmas, para o dia da ira e da manifestação do juízo de Deus, quando Deus retribuirá cada um conforme o seu procedimento. Até que um dia, ou talvez nunca, dão conta que apesar de possuírem tudo que sonharam, riqueza, poder, fama e imensos depósitos de pedras transformadas em pães, por dentro, no coração empedrado, estão pesadas, completamente consumidas e desabando como velhas casas construídas sobre a areia, balançando perigosamente como uma velha estrutura corroída por cupins, dia e noite devoradas pelo vazio angustiante de uma fome maior do que qualquer fome de pão. Temem e tremem, pois sabem - e não há como não saber - que certamente desabarão, quando o vento soprar, a chuva cair e as águas subirem violentamente contra as paredes dos seus castelos de areia.



Enquanto o tempo corre implacável e a vida se aproxima perigosamente do seu inexorável fim, como quem tem olhos, mas não vê, eles, pela cobiça transformados em meros bonecos de carne, olham pela janela, cada vez mais desenganados, perplexos e sobrecarregados pelo fardo crescente de uma profunda solidão, que permanece viva e cortante, mesmo quando eles estão acompanhados, e se perguntam: É só isso, a vida? Temem, entre outras coisas, a morte e o que vem depois da morte, o juízo de Deus. Muito embora, como defesa interna, resultado do imenso vazio que os devora, lutam - sem vitória alguma - para negar a existência de Deus. A ideia de um Deus que pune o pecador, e que separou um dia para juízo de justiça, incomoda profundamente esse tipo de gente. Mergulhados no tédio e no medo, cativos de uma existência cheia de pedras transformadas em pães, mas vazia de verdade, justiça e sentido transcendente, sofrem a angústia miserável de uma consciência culpada, um verme que nunca dorme e que sabe ser tão pobre e miserável, a ponto de não possuir mais nada, além de algum dinheiro no banco, sabe-se lá, embolsado por qual meio ilícito e vergonhoso. 



Como meninos desamparados de pai e mãe, que anseiam colo e ser amados, mas incapazes de amar, pois só pensam em si mesmos, ou pior, como animais enjaulados que se debatem por uma oportunidade de fuga, ansiosos para aliviar o tédio, descansar das decepções da existência e fugir das grades da sua prisão de solidão, inutilmente vagueiam se agitando contra as paredes dos labirintos da existência, pagando caro e buscando aqui e ali, perambulando sem destino certo pelos becos da feira das vaidades, sem nunca encontrar, daí a busca nunca cessar, qualquer coisa, qualquer mesa de bar, qualquer noitada, qualquer corpo sem órgãos, talvez até uma breve imitação de amor, ou qualquer ilusão ou vício transitório, mas miserável e previsivelmente recorrente, que lhes ofereça, por um tempo igualmente breve, alguma consolação para as suas aflições, decepções e vazios existenciais, e os livre das garras do desespero, impotência, vergonha e escuridão, que, para eles, fartos de pedras transformadas em pães, mas vazios de coisas que o dinheiro não pode comprar, fé, esperança e amor, a vida se transformou... Não são mais do que árvores secas no deserto, morrendo sem jamais dar algum fruto durável e agradável.



Como o esforço de Sísifo, o esforço deles também é inútil. É inútil, porque a união-comunhão que eles buscam fora deles, unindo-se desesperadamente e entregando-se, por preço, a qualquer coisa, vício, traição, vaidade, luxo, drogas, abusos, orgias e pessoas igualmente sem Deus, só pode ser realizada dentro deles, pela renúncia de tudo que até agora os motivou, nas profundezas da alma, no fundo do coração, primeiramente entre eles e Deus. Deus esse que eles, convenientemente, em tempos remotos, para escaparem dos desertos da existência, abandonaram em troca de um punhado de pedras próprias para transformar em pães, ficando assim, condenados a morrer perdidos num terrível deserto, fogo consumidor que agora os devora por dentro e por fora, caminhando sempre, mas sem jamais alcançar a Canaã de Deus. 



Portanto, fica dito, que a única possibilidade de um retorno aos campos verdejantes da vida, deve acontecer a partir de uma renúncia completa às pedras, isto é, renúncia ao espírito do mundo em favor do Espírito de Deus... Mas isso, eles não querem, nem desejam, viciados que estão em transformar pedras em pães. Lamentavelmente, que coisa horrível, perderam a alma, endureceram o coração... Fizeram-se de surdos para o som suave da Palavra de Deus. Adoeceram na alma. Bateram no peito, empinaram o nariz, e, coisa triste, arrogantemente disseram, um animando o outro: Somos ricos, adquirimos muitas riquezas e não precisamos de nada. Não reconhecem, porém, que são miseráveis, dignos de compaixão, pobres, cegos e nus. Sim, com efeito, eles têm olhos, mas não enxergam. Tem ouvidos, mas não escutam. Estão mortos nos seus pecados recorrentes, dormentes para a leveza das coisas que o dinheiro não pode comprar... Do céu vem a condenação sobre a alma deles: “Continue o injusto a praticar injustiça; continue o imundo na imundícia; continue o justo a praticar justiça; e continue o santo a santificar-se". "Eis que venho em breve! A minha recompensa está comigo, e eu retribuirei a cada um de acordo com o que fez. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim”. [Apc 22:11-13]
_VBMello 
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