26 de março de 2017

É necessário que vocês nasçam de novo. - João 3:7












No contexto do evangelho, ver é mais do que uma arte. Não é, ou não é tão somente, uma educação dos sentidos. É mais do que um exercício espiritual. É um milagre. Começa como milagre, o novo nascimento, onde Cristo abre os nossos olhos, e segue como milagre, a santificação, quando, pela iluminação do Espírito Santo, somos guiados no caminho estreito, onde todas as coisas colaboram para a nossa maturidade e crescimento espiritual.

Assim, a questão da nossa visão, está centrada unicamente em Cristo. Antes dele nos encontrar e curar, somos cegos, surdos e mudos. Cristo é aquele que abre os nossos olhos e coloca boas novas nos nossos lábios. Se ele não curar a nossa cegueira, permaneceremos cegos para sempre. Além de Cristo, não existe arte – ou exercício espiritual - que seja capaz de purificar o nosso olhar. Se Cristo não iluminar os nossos olhos, por nossa própria conta, com todos os nossos esforço, artes, orações, jejuns e exercício espirituais, só faremos tapar o sol com a peneira. Nossa vida começa em Cristo e segue após ele. Permanecer nele é permanecer na luz. Não existe outro modo de ver através da escuridão do mundo. Longe de Cristo e da luz do seu Espírito, permanecemos cegos para sempre. Simples assim.

O mesmo acontece com os nossos sentimentos. Se Cristo não libertar o nosso sentimento, permaneceremos insensíveis para sempre. Se ele não disser: Haja luz. Permaneceremos eternamente presos nas trevas e no caos das nossas emoções descontroladas. 

Antes de Cristo, o nosso coração é sempre instável. Podemos engolir os sentimentos e reprimir as tóxicas paixões da alma, mas nunca, por nossa própria conta e esforço, alcançaremos verdadeiro equilíbrio interior. Nosso equilíbrio interno estará sempre por um fio. Haverá sempre um inconsciente sombrio esperando uma oportunidade para se manifestar. Nossa santidade continuará brilhante e encantadora, até o dia que alguém mais ousado pisar no nosso calo, aí, do nada, o velho homem surge novamente em cena, fazendo estragos. Há um velho Logan, escondido na alma de todos nós. Uma provocação, no máximo duas, ele logo mostra as garras. Por um esforço hercúleo, podemos esconder as garras, podemos até nos esconder do mundo, podemos evitar confusão, podemos escolher a solidão e a bebida, ou qualquer outra droga, mas o velho homem continua vivendo dentro de nós, como um vulcão esperando uma oportunidade para explodir e entrar em erupção.

Todo mundo já viu esse filme. Tudo mundo que já colecionou recaídas emocionais, sabe muito bem que a questão das emoções demanda muito mais do que exercícios espirituais e inteligência emocional. Do ponto de vista do evangelho, que por mais de dois mil anos continua se provando verdadeiro, demanda novo nascimento. No lugar do velho homem, precisamos de um novo homem, com um novo coração e uma nova vocação existencial; Precisamos, nas palavras de Jesus, nascer de novo.


Diante do nosso descontrole interior, Cristo não nos recomenda fuga, solidão, bebida ou leitura de Daniel Goleman ou Augusto Cury, ele diz que precisamos nascer de novo. É o único jeito de começar uma vida nova. 


Pois é, meu irmão, Cristo, logo de início, dá um xeque-mate na nossa pretensão de ser alguma coisa, sem a graça dele. “Sem mim, ele diz, nada podeis fazer.” 

Podemos até tentar viver uma vida linda, bela e equilibrada, mas não podemos conseguir isso sem a ajuda de Cristo. Conheço um monte de gente que tentou, tentou; fracassou, fracassou, até que desistiu de uma vez, e agora fica fazendo aquele discurso clássico, que soa como um epitáfio sobre a sua sepultura: “Eu sou assim, nasci assim. Sempre fui assim. É o meu jeito de ser, meu carma, meu destino. Herdei esse meu jeito, dos meus pais”. 

Pois é, meu querido irmão, é desse jeito, simples assim. A educação dos nossos sentidos não é (só) uma questão de exercício emocional. É uma questão de renascimento espiritual, coisa impossível fora de Cristo. Ponto final. Entendeu?

Cristo é aquele único que liberta o nosso coração, purifica o nosso olhar e unifica o nosso ser inteiro, numa totalidade livre de contradições e lutas internas entre o nosso olhar e o nosso sentir, e elimina a contenda entre o nosso pensar e o nosso falar. E ele faz isso, não mediante o nosso esforço, mas exclusivamente pela maravilhosa graça do seu Espírito Santo, que está sempre em nós, sustentando, consolando, iluminando guiando e fluindo do nosso interior, como uma torrente de água viva e purificadora.

Para o cristão, se verdadeiro, todo olhar só é legitimo e criativo, na medida em que é iluminado pelo olhar de Cristo. Para quem chama a si mesmo de cristão, olhar a vida a partir de qualquer outra direção, autoajuda, ou cobiça, pelo motivo que for, é pecado. É só olhar ao redor para ver que essa pretensa espiritualidade nascida da força do próprio braço, forjada a poder de academias, comida natural, meditação, yôga, etc, só vai até a página dois, e se passar da página dois, raramente passa, só serve para criar mais um arrogante pretensamente espiritual, do tipo "mamãe, eu quero ser forte" e que fica se vangloriando o tempo todo, dizendo: eu fiz, eu consegui, eu posso.

Não é assim com o cristão. No contexto do evangelho, exercícios físicos, comida natural, ou o que for, não favorecem em nada a nossa espiritualidade. A pessoa pode ter um corpo sarado e ainda assim, ter uma alma completamente pobre de valores espirituais. A espiritualidade do cristão, não vem de comidas ou jejuns, academias ou corridas, vem de Cristo. Só mais uma palavra: Nada contra academias ou comidas naturais, eu adoro. Mas essas coisas não vão além dos nossos músculos, não chega até as profundezas do nosso espírito. Mudam a nossa aparência, mas não mudam o nosso coração. Viramos pecadores fortes e bonitos, só isso. Imaginar que essas coisas nos transformam em pessoas espirituais, é uma grande ilusão. Se fosse assim, eu seria o homem mais espiritual do mundo. Por mais de vinte anos, fui vegetariano. Nada de café, nada de carne, nada de refrigerante, corria, nadava e lutava sem parar. Saindo de Vila Velha, no Espírito Santo, viajei dois mil e quinhentos quilômetros pelo sul da Bahia e nordeste, tudo sozinho e de bicicleta, pratiquei um monte de lutas marciais. Comecei na pesca submarina aos 13 anos, fiz grandes amigos e achava-me razoavelmente espiritual, um cara legal, até que a ficha caiu. Por dento, eu era um caos só. Corpo forte, disposto e livre de colesterol, mas por dentro, na alma... deixa pra lá, melhor não falar dessa parte...

Voltando ao assunto. Na vida, não temos outra hermenêutica. Cristo é a hermenêutica do nosso olhar, do nosso falar, do nosso pensar, do nosso sonhar e da nossa vida inteira, a fonte única da nossa espiritualidade. Diante dele, olhamos o mundo e pensamos a vida, através do seu Evangelho, e isso liberta o nosso coração e abre os nossos olhos. 

Com efeito, nele vivemos, nos movemos, respiramos e existimos. Fora dele, apartados da sua maravilhosa graça, somos cegos, surdos e mudos. Definitivamente, não há espaço no nosso coração, para outro tipo de salvação ou espiritualidade. Para sermos alguma coisa, precisamos deixar Cristo ser tudo em nós. 

Com efeito, para um cristão verdadeiro, olhar o mundo por conta própria, sem olhar para Cristo, é o pior dos pecados, ou, se preferir, a maior das tolices. É olhar sem ver. É olhar pequeno demais. 

É isso, meu irmão, precisamos compreender que espiritualidade e novo nascimento, são coisas diferentes. Há muitas escolas e mestres de espiritualidade, e, de certa forma, com um pouco de dedicação, qualquer um pode ser espiritual. Mas nascer de novo... Bem, isso não depende de escolas ou mestres de espiritualidade, não depende de ascese ou educação dos sentidos, comidas ou bebidas. Depende de um gesto muito mais simples: Entregar a nossa vida inteira nas mãos de Cristo. Simples assim.
_VBMello