7 de dezembro de 2016

Amor não é esmola...


Ama o teu próximo como a ti mesmo... Pois bem, não se engane. Olhar e tratar o próximo com gestos de amor e palavras de misericórdia, só tem valor verdadeiro quando a misericórdia, sem qualquer desculpa – ou intenção de recompensa, nasce da compaixão genuína que sentimos pela pessoa oprimida, pois o amor, ao se ver diante de qualquer tipo de opressão, sofre a mesma dor, e mesmo à custa de prejuízo próprio, se revolta, se posiciona, denuncia, exige e age pela liberdade do oprimido, posto que a pessoa oprimida, não é uma criatura estranha, mas sim, gente como a gente, um semelhante, um igual.


E age completamente livre de anseio por recompensa ou retribuição, porque sabe e aceita - sem arrependimento ou murmuração -, que a única recompensa justa do amor, é a satisfação de amar. A satisfação livre e espontânea de ser um imitador de Cristo. Pois não existe nada mais desprezível, Sim, nada mais desprezível, do que um indivíduo que ama em troca de recompensa, seja que recompensa for.


Sem nenhum exibicionismo social ou espiritual, onde quer que se encontre, invariavelmente, o amor trabalha, mediante o espalhamento imparcial dos seus frutos, pela construção de uma vida de igualdade e justiça, onde o amor de Deus, sem medida, reverbere livremente no mundo dos homens, vencendo as trevas e confirmando a vitória do reino da luz.


O amor não busca cargos políticos ou religiosos. O amor quer amar, só isso. Nas palavras de Jesus: quer apenas – modestamente - ser luz para o mundo e sal para a terra, nada mais, nada menos do que isso. Ao mesmo tempo em que é avesso ao espírito de opressão, é avesso ao elogio. Portanto, no amor, se verdadeiro, não existe qualquer tendência para idolatria, nem alegria com a humilhação dos outros. A pessoa que ama, se ama de verdade, não pisa em ninguém, nem se coloca num pedestal, mas trata a todos com justiça, verdade e igualdade. 


A pessoa que ama não se vangloria, não inveja, não idolatra, nem humilha ninguém, pois a ordem de amar o próximo, exige que se reconheça a todos, independentemente das circunstâncias, como iguais. Todos são iguais, diz o amor. Todos são imagem e semelhança de Deus. Cada qual, claro, perante a lei, deve ser responsabilizado pelos seus atos, mas ninguém, absolutamente ninguém, pode ser tratado com injustiça. O amor não se alegra com a injustiça.


Quem ama a Deus, seja completo no amor, ame também o seu próximo... Deus não nos chamou para ter pena das pessoas. Ele nos chamou para amá-las. Nos chamou para o envolvimento, para sentirmos em nós, a dor dilacerante delas, e não para a indiferença, que tantas vezes, uma esmola ou uma oração - ou uma oferta na igreja -, disfarça tão bem. 


Não é por pena - ensinou Cristo -, que se deve demonstrar misericórdia pela pessoa oprimida, mas por reconhecer nela, num gesto de humildade genuína, um igual. Imagem e semelhança de Deus, tanto quanto imagem e semelhança de Deus, somos nós. Ninguém é diferente. Todos são iguais. Ninguém é estranho. Somos todos humanos. Ninguém deve ser tratado com pena, mas todos, sem exceção, devem ser tratados com amor, esperança e fé. Pois amar, não é outra coisa, senão ter fé no outro. Sim, amar é ter esperança no outro. É ajudá-lo a se tornar aquilo que ele sabe que nasceu para ser.


Amor não é esmola... Amor é a manifestação da verdade, pois Deus é amor, e quem não ama nunca viu a Deus. Uma esmola aqui e ali, às vezes, quando muito, só serve para aliviar, momentaneamente, a própria consciência culpada. Mas não foi para esmolas que Cristo nos chamou. Quem ama - de verdade - não espera, que lhe mendiguem uma esmola. Ele, Jesus, com palavras e fartura de exemplos, nos chamou para o compromisso com a causa dos excluídos. Deus é Deus dos humilhados e dos excluídos. 


Onde quer que a injustiça se instale e se alastre, numa cidade, num Estado ou no país inteiro, gerando miséria e opressão no meio do povo simples, ele nos chama ao compromisso com a causa da vida, da verdade e da justiça. Nesse sentido, todos são chamados a ser profeta de Deus, pois o profeta, mesmo à custa da própria vida, é um indomável denunciador de toda forma de injustiça e opressão. É isso.
_VBMello