4 de abril de 2017

Chegada e partida















Se eu pudesse descrever                              
Diria - chamando pela imaginação
Que no dia do meu nascimento
Abafando todo desamparo
Escuridão, medo - e ressentimento
Havia uma música suave no ar
Dessas que só se ouve com o coração
E o Espírito - pairando acima 
Do caos da minha alma informe 
Tomada pela leveza 
Do primeiro dia da criação
Transportou-me das garras da escuridão
Para o abraço do calor da luz do dia
Eu, mera página em branco
Com alguns rabiscos hereditários
Sem saber a solidão que me esperava
Como quem escapa de um afogamento
Senti fôlego de vida sendo soprado
Nas minhas narinas...
Ouvi pássaros cantando
Um leão urrando
Um burro fugindo
Hienas ameaçando
E alguém dizendo: Haja luz.
O mundo inteiro – e muito mais
Pulsava dentro da ingenuidade da minha alma
E a eternidade - quem poderia imaginar - transitava
Pelos caminhos recém-inaugurados do meu coração
Bebi o meu primeiro gole de ar – e repeti
Uma torrente de água viva brotou no meu interior
Das mãos daquele que me fez nascer
Nasci como quem sonha um sonho bom...
.
.
.
Amanhã, ou depois de amanhã – talvez hoje
No fim dessa linha – a alma inteira
Quando a solidão terminar o seu trabalho
A vida escavada até o fundo
Queimada como uma tocha 
Que se recusou apagar
E tudo ainda for mistério 
Ou quando o Senhor me convidar
Para seguir para além dos caminhos
Dessa existência sempre faminta
Em silêncio, sozinho com aquele que me fez
Deitado no meio da noite derradeira
Quero recordar a consolação da música primeira
E olhar uma última vez o rosto dessa criança
Surrada, engolida e inspirada pela vida
Que, ingenuamente, sempre carreguei comigo
Então, com gratidão, saudade e alívio
Sem medo ou vergonha de confessar que vivi
Partirei cantando e sorrindo, ainda que tenha chorado...
_VBMello