25 de março de 2017

Fome e sede de justiça






















A vida inteira, sem cessar
Eu tive fome e sede de justiça
Já chorei de fome de justiça
Já perdi noites agonizando
De fome e sede de justiça
Já lutei e já briguei por justiça
Já gritei e reclamei por justiça
E a minha fome de justiça
Jamais foi completamente saciada


Olho ao redor
Escuto vozes
Ouço rumores
Vejo coisas
E ela só faz aumentar
Está nos meus ossos
Está no tutano da minha alma


Movido por essa insaciável fome de justiça
Todo dia, o ano todo, sem cessar
Eu me curvo em oração diante de Deus
Não tenho outro pedido
Não tenho outra oração
Já não suporto mais
Anseio por justiça


Nesse caminho, não há perdão
Quem busca e espera por justiça
Será sempre medido pela lei da indiferença
O mundo não dá a outra face, jamais
O mundo não faz restituição, nunca
O mundo nunca se cansa de fazer injustiça
O mundo não tem consciência
O mundo é um cão danado
Uma serpente que só pensa em si
O mundo é uma sanguessuga insaciável
Que grita sem parar: dá, dá, dá, dá
O mundo jaz no Maligno


Diante da face de um inimigo tão covarde
Uma tentação constante paira sobre
A cabeça de quem sofre fome e sede de justiça
Fazer justiça com as próprias mãos
Já lutei contra essa tentação
Ferro contra ferro, espada contra espada
É tão fácil iniciar uma guerra
É tão fácil dar um tapa na mesa
É tão simples chutar o balde
Nunca tive medo de cara feia
Nunca tive medo de homem forte
Enfrentar gigantes é a sina de todo cristão
Então, duas batalhas se travam em mim
Uma por justiça e verdade
Outra para não fazer justiça 
Com as próprias mãos


Sim, já chorei de fome de justiça
E já chorei diante de Deus
Pedindo forças para não
Começar uma guerra
Deus ouviu as minhas orações
Finalmente o meu sangue parou de ferver
E o meu coração alcançou alguma paz
Hoje posso dizer que desisti das guerras
Mas isso só resolveu metade do problema
O meu sangue ainda ferve de fome de justiça
Mais do que a minha própria dor
É a dor dos outros que dói em mim
Diante dessa súcia de políticos corruptos
O meu peito se rasga em oração diante de Deus
Busco justiça, só justiça, e nada mais
Diante das notícias de todo dia
Cresce a indignação e as palavras
Não podem ser contidas
É no meu espirito, no mais profundo de mim
Que eu grito, oro, choro e protesto
Raça de víboras! Hipócritas! Raposas!


É tão grande a minha indignação
Se eu não fosse crente, gritaria bem alto:
Filhos da puta! Filhos de uma cadela!
Mas eu sou crente e essas palavras
Não ficam bem para um homem de fé
Mesmo quando dirigidas a essa corja
Que saqueia o país inteiro, sem piedade
Além do mais, sei lá, alguém muito santo e espiritual
Ou melhor, essa gente do politicamente correto
Que tomou o controle da Igreja no Brasil
Poderia dizer - com alguma verdade? - que esse modo de falar
É só mais uma forma disfarçada de justiça própria
Então, vou de raça de víbora mesmo, hipócritas e serpentes
Filhos da puta... ops... Senhor, me perdoe mais esse pecado


Enfim, corro de político corrupto
Ou de candidato a político corrupto
Pois nesse país doido
Para cada corrupto
Tem outros cem na fila
Esperando a vez de substituí-lo
Como o diabo corre da cruz


Em se tratando dessa corja
Levo ao pé da letra o Salmo 1
Não me sento na mesa com homens injustos
Covardes que colhem onde não plantam
E ladrões que constroem sobre fundamento alheio
Se me olham nos olhos, eu também olho nos olhos deles
Jamais curvo a cabeça diante desse enxame de gafanhotos
Mas desisti das guerras da carne e do sangue...
Claro, algumas vezes, ainda sinto vontade dar um tapa na mesa
À moda de Cristo, sinto vontade de fazer um chicote e, etc, etc...


Mas não foi para guerras de chicotes
Que Cristo nos convocou ao seu evangelho
Ele nos convocou para uma guerra de fé
Onde as armas são outras


Lutar à moda do mundo, não seria vencer
Seria substituir a fome pelo vazio
Seria vencer a preço de alma
Seria cantar vitória a preço de morte interior
Na verdade, isso sequer seria uma vitória
Seria se juntar ao inimigo... Pior, seria se juntar ao diabo
Seria fazer parte das trevas que se diz combater
Seria se transformar também num canalha filho da puta
Um cão infeliz que só pensa em dinheiro e poder


Seja como for, eu não luto essas guerras do diabo
A minha luta é uma luta de fé, confiança e entrega
A justiça que eu busco, pois não é justiça de homens
Só é possível como gesto e acontecimento puro de fé 
Pois me convoca ao absurdo de orar pelos que me perseguem
E, mais absurdo ainda, dar a outra face e amar os meus inimigos


Os caminhos e estratégias dessa guerra estranha
Nem mesmo, com justiça, se pode chamá-la de guerra
Pois em momento algum, por qualquer meio
Visa a destruição do inimigo
São todos diferentes dos caminhos do mundo


Enfim, os caminhos dessa guerra
Passam por outros caminhos
Não se trata de matar, roubar e destruir
Coisa comum em toda guerra
Aliás, no dizer de Clausewitz
A guerra não é outra coisa senão
A continuação da política por outros meios
Enfim, guerra ou política, leia-se politicalha
São duas faces da mesma corrupção
Portanto, nem na guerra, nem na politicalha
Acontece a guerra de quem tem fome de justiça


Outra é a vocação de quem tem fome e sede de justiça
Uma vocação que não se ilude com promessas de poder
Nem com poder político, nem com poder eclesiástico
É um chamado ao espírito de verdade e justiça
Um chamado que é um ato de adoração a Deus
Pois é luta incansável pela verdade e pela justiça
É uma vocação onde, mesmo as circunstâncias
Dizendo o contrário, se tem fé e esperança nas pessoas
E, ao invés de armas, pedras, facas e foices, estende-se a mão
Ao invés de eliminar e matar, a vocação do homem bom
É chamar o outro ao encontro da paz e convidá-lo
A promover, com todas as forças, o espírito de equidade


Sim, com efeito, eu já gritei e chorei
E ainda choro de fome e sede de justiça
Todo dia, o ano todo, o tempo todo,
Eu me curvo diante de Deus
Para quem fazer justiça
É amar, perdoar, reconciliar
E tratar com misericórdia
E oro pelos meus perseguidores e inimigos
Sim, eu sei... Um dia... Amanhã, ou depois de amanhã
Essa minha fome será completamente saciada


Mas enquanto o amanhã não chega
E o leão continua rondando ao derredor
Procurando alguém para devorar
Eu descanso completamente na justiça de Deus
Que, ao contrário da justiça dos homens, nunca falha


Sim, meu irmão, nesta ou na outra vida, não importa
A minha fome de justiça, de uma vez por todas
Será completamente saciada 
E eu ficarei satisfeito e feliz 
Com a justiça, com a imparcialidade 
E com a misericórdia de Deus


Sim, há um leão ao derredor, urrando e tramando, pois que urre e berre... Há um Leão em mim, o Leão de Judá. A quem temerei? Sim, a quem temerei? É Deus quem me justifica, garante e diz: Bem-aventurados os que tem fome e sede de Justiça, pois serão fartos... É isso. Simples assim.

_VBMello