24 de março de 2017

Cardos e abrolhos



















Não cultivo jardins, não mais
Nem me iludo com palavras
Cansei-me dessas ilusões
Mas invejo a vida das flores
Tão breve, tão breve...
É a minha única inveja
Fora as flores, não invejo
Nem admiro coisa alguma
Tenho poucos ídolos


Sou um homem de solidões profundas
Não tenho bravatas para contar
Tenho feridas para mostrar
As minhas guerras eu luto
No tutano dos ossos, sozinho
A minha espada é o meu coração
O meu escudo é a minha alma
Não faço nada pela metade
Em tudo, eu vou até o fim
Não tenho nada para vender
O meu evangelho não é comércio
As minhas palavras não são propaganda
Não busco seguidores. Não sou novela


Não sou um mestre na arte de me poupar
Dos meus antepassados... não herdei nada
Nem olhos vivos, nem coragem, nem verdade


Conheço o caminho para Damasco
E conheço o caminho para Jerusalém
Imito a dor de Paulo
Não espero ser compreendido
Sou o maior dos pecadores
Sou como todo mundo
Nascido em pecado
Não sou melhor do que ninguém
Não valho nada desde que nasci
Sou filho de uma horda de covardes
Estou terrivelmente cansado de falsos irmãos
Estou farto das suas línguas estranhas
Estou cansado das suas palavras prudentes
Os seus olhares oblíquos, me dão ânsia de vômito
Tenho pressa de sumir no mundo, até os confins da terra


Em cada canto, um falso profeta
Em cada esquina, um falso pastor
Não existe justiça na terra
O pai é contra o filho
O filho é contra o pai
E o tempo é contra todos
E essa é a única justiça que há


Sobre a nossa cabeça
O céu é de ferro
E sob os nossos pés
A terra é árida e seca


Fiz dez mil orações
Nem uma foi respondida
Culpa minha, da minha pouca fé
O mundo é uma bolha de sabão
Tudo que é solido desmorona no ar
Os demônios que fugiram para o deserto
Voltaram todos e rodeiam a nossa casa
Urrando como leões famintos


Olhamos para o céu e esperamos
Um Armagedom se anuncia
A Fé virou negócio, barganha e comércio
E essa é toda a nossa fé e o nosso louvor
Fingimos que cremos
Fingimos que amamos
Fingimos que caminhamos
A terra ri da nossa mentira
A noite desmascara a nossa confiança
Há flores nesse deserto? Alguma luz nessa escuridão?


Todo dia, toda hora, sem cessar
Eu olho para o céu e grito
Eis me aqui, Senhor. Estou pronto!
Previsivelmente..., não há resposta


Todavia, apesar do silêncio
Sem saber como, ainda creio
É que algumas flores raras, dizem
Só florescem na escuridão e no silêncio
Talvez amanhã, ou depois de amanhã
O dia... finalmente... amanheça.... Sim, talvez...
_VBMello