11 de setembro de 2016

A Morte do Rico

"No silêncio da noite, a Morte desceu do além e entrou na casa do rico e lhe tocou a fronte. E o rico despertou em sobressalto. E quando viu a sombra da Morte, gritou, ao mesmo tempo revoltado e aterrorizado: "Afasta-te de mim, sombra maldita; afasta-te de mim, ladra! Senão, chamarei meus escravos para que te despedacem."

A Morte aproximou-se mais e retrucou:

"Sou a Morte. Reflete e escolhe tuas palavras. " O rico replicou: "Que queres de mim tão cedo? Que esperas dos poderosos como eu? Vai visitar os pequenos. Sai daqui, com tuas unhas cortantes e tua cabeleira enrolada como serpentes. Vai. Não tenho nenhuma vontade de ver tuas asas grotescas e teu corpo disforme. "

Mas, depois de um silêncio turbado, retratou-se:

"Não, não, ó Morte benevolente, não me julgues por minhas divagações. O medo faz dizer o que a razão condena. Toma uma porção do meu ouro, ou algumas almas de meus escravos, e poupa-me. Tenho contas com a vida, que ainda não liquidei. Tenho créditos a receber. Tenho, pelas ondas, navios que ainda não alcançaram o porto. Tenho, sob a terra, sementes que ainda não germinaram. Leva o que quiseres dessas riquezas, mas poupa-me. Tenho concubinas belas como a aurora: escolhe entre elas a que desejares. Escuta, ó Morte, tenho um filho único. É a concretização de todas as minhas esperanças. Leva-o, e deixa-me. Leva tudo o que quiseres. Leva tudo. Mas poupa-me."

Então a Morte pôs a mão sobre a boca do escravo da vida e tomou sua verdade e a entregou ao vento. . ."
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Areia e Espuma – (Khalil Gibran)