27 de julho de 2016

Getsêmani...


Desesperado, sinto que o chão afunda sob os meus pés. As minhas carnes estremecem sobre os meus ossos, e a minha respiração falha. Oh, meu Deus, como eu poderia descrever com palavras, a tristeza que me assola? O ar ao meu redor vibra pesado, cheio de setas e rosnados. Pesada é a noite e absoluta é a solidão dos combates da alma. Leões rugem ao redor. Todos, sem faltar um, que um dia eu pensei serem meus amigos, sumiram, evaporaram no ar, feito bolhas de sabão. A minha pobreza os afastam de perto de mim, como se fosse uma doença contagiosa. Só me olham de longe e muito rapidamente, apontam-me, como se eu fosse um cão, e vão embora resmungando, rindo e falando de coisas que nada entendem. Estou sozinho, vagando na imensidão da escuridão. Todos dormem o sono dos justos. Mas o meu sono é leve e cheio de pesadelos. Serpentes rastejam junto aos meus pés, procurando uma oportunidade de humilhação contra mim. Ao longe, ouço um riso estridente. É a gargalhada do diabo, que ecoa na madrugada escura. Mas eu não me desvio da direção do meu caminho. Sigo em frente, andando entre cobras, serpentes e escorpiões. Não levo bagagem. Levo comigo apenas uma pequena semente de fé, um resto de esperança e alguma fome de amor e paz. A estrada é escura e estreita, mas eu não ando tateando, sequer curvo a cabeça diante da turba de demônios, que me perseguem. Rangem os dentes contra mim, e tramam contra a minha sorte. Todavia, ninguém me olha nos olhos. Falam de longe, tramam pelas minhas costas e não há nem um sequer, que tem coragem de se aproximar e me olhar demoradamente nos olhos. O chão é instável e escorregadio, mas eu ando com passos firmes e decididos, pois sei para onde vou. A minha alma brilha como uma sarça ardente. Sou um cálice de tontear para eles, bebida forte que ninguém pode sorver sem desabar. Uma surpresa, um encanto e um pavor. Fora da minha alma o caminho é demasiado escuro, deserto e cheio de perseguições. Mas, nas profundezas do meu coração, onde os meus inimigos não chegam, é outro, o caminho que eu caminho. Onde olhos humanos não enxergam, nem a imaginação imagina, outra é a fonte das minhas alegrias e esperanças, e outro é o meu tesouro. De olhos fechados, o coração aberto e a alma e a mente rendidas ao Senhor, ando melhor de olhos fechados, pois é Deus mesmo, quem me toma pela mão e me guia pela escuridão do vale da sombra e da morte... Ainda que mil caiam à minha direita e dez mil tombem à minha esquerda, nos dias de temporais e vendavais, quando a terra estremece e o céu escurece, a casa da minha alma não será atingida. Pois eu a firmei bem firme sobre a rocha pesada das palavras do Senhor. Não sigo por um caminho novo. O meu caminho é antigo, milhares de milhares já o cruzaram antes de mim. Ando nos passos dos antigos profetas e apóstolos. Ando nos passos de todos os homens e mulheres de Deus, que, pela fé, viveram antes de mim. Ando nos passos de Abrão, Isaque e Jacó, ando nos passos de Jesus... Demônios me observam e zombam, mas são anjos que me acompanham e me guardam. A quem temerei? Sei o lugar para onde vou. Sei em quem tenho crido. Como filho pródigo – que sou - caminho na direção do céu, para os braços de Deus... E ele, o Pai Celestial, me vê vindo ao longe, consumido pelo sofrimento, enfraquecido perante as dores da vida, e corre ao meu encontro, os braços abertos, os olhos marejados de lágrimas e um sorriso nos lábios... Ó Deus, minha alegria, minha herança, minha redenção... Tu és meu... E eu, sou teu!
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Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro". Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Rm 8:35-39)

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_VBMello - (quarta-feira, 27 de julho de 2016)