14 de março de 2017

Um homem perplexo...






Sim, eu confesso: eu sou um homem perplexo
Não, porém, desanimado – talvez só um pouco
Mas não tão desanimado a ponto de perder a esperança
Apenas o suficiente para me prevenir contra as ilusões da vida


Talvez eu seja mais desconfiado do que desanimado
Seja como for, em tempos como o nosso
Um pouco de desconfiança, como dizem 
Não faz mal a ninguém 
Desconfio sempre 
Das primeiras impressões


O diabo, sim, ele mesmo, adora chegar 
Causando boa impressão
O diabo é o mestre da boa impressão
É na primeira impressão
Que ele te pega, ou não pega
O diabo nunca chega dizendo que é o diabo
Não é uma boa propaganda para as trevas
Se apresentar com cara de treva
O negócio do diabo é imitar anjo de luz 
E causar boa impressão, de cara
O diabo lembra muita gente que eu conheço...


É interessante o que o profeta Isaías
Disse a respeito de Jesus
...como raiz de uma terra seca
Não tinha beleza nem formosura 
E, olhando nós para ele
Não havia boa aparência nele
Para que o desejássemos


É isso, acredite ou não
Jesus nunca esteve preocupado
Em causar boa impressão em ninguém
Jesus, imagino, nunca fez qualquer curso
De marketing pessoal... Que coisa


Quem Jesus realmente era 
Permanecia sempre oculto
Sob uma aparência simples
Comum e sem formosura
Ele não fazia propaganda
Pois não estava no negócio
De vender milagres
Para conhecê-lo, era preciso mais
Do que ficar olhando de longe
Era preciso se aproximar e convier
Andar, comer e beber com ele
E ter olhos para ver e ouvidos para ouvir


Pois é, num mundo líquido
No dizer de Zygmunt Bauman
Gosto de coisas sólidas e verdadeiras
Coisas construídas sobre a rocha
Coisas à prova de vento e chuva forte


Nas coisas da alma e do espírito
Não gosto de goteiras e vazamentos
Gosto de coisas que só vê bem
Com os olhos do coração
Não gosto de rumores... Gosto de fatos
Só me encanto com o que vem da convivência
Dizem que sou arredio.... Talvez seja mesmo


Seja como for, gosto de testar a realidade das coisas
Só o que sobrevive à força dos ventos
Só o que é provado pelo fogo
Eu levo comigo e creio


Isso explica, em parte
Porque tenho poucos amigos
Também explica, acho, porque cada
Um dos poucos amigos que tenho
Vale por mil, e até mais, muito mais


Coisa rara de achar é um amigo
Dizem que vale mais do que um irmão
O que eu concordo plenamente
Sei lá, já vi tanta coisa
Já vi tanto pai abusar dos filhos
Que às vezes, mas posso estar errado - ou não
Penso que um bom amigo(a)
Vale até mais do que uma família inteira


Enfim, sou assim, em se tratando de primeira impressão
No amor, na amizade, ou em qualquer outra coisa
Principalmente no que diz respeito
A essas coisas que dizem que vem de Deus
Avivamentos, milagres, etc
Sou um desconfiado completo
Cético até o tutano dos ossos
Gosto de testar a realidade das coisas
Se pedem dinheiro em troca de milagre
Dou uma banana e dou no pé
Tudo já foi consumado na cruz de Cristo
Não há mais espaço para barganhas


Não me leve a mal, eu sou assim
Claro que eu acredito em milagres
Entretanto, não acredito em indústria de milagres
Nem acredito em milagreiros de plantão
Mas essas coisas existem -, sim, existem
Pequenas empresas, grandes negócios
Sim, isso mesmo, quando a fé é distorcida
Quando uma denominação qualquer
Vira uma paródia da verdadeira Igreja
A fé, isto é, o seu arremedo, vira o ópio do povo
A pessoa pensa que crê, vai ao culto todo dia
Mas no fundo só está viciada nas promessas que escuta
Promessas essas, é bom que se diga, que Deus nunca fez
Tudo isso me deixa perplexo e muito desconfiado


Num passado não muito distante
Eu acreditava em qualquer boa impressão
Ficava impressionado com discursos e promessas
Hoje ainda levo na alma as marcas da decepção
Virei gato escaldado... 
Agora gosto de testar a verdade das coisas
Sei lá, hoje em dia, com tanto lobo vestido de cordeiro
Um pouco de desconfiança, como dizem, não faz mal a ninguém


Não gosto de coisas construídas sobre montes de arreia
Não gosto de fé que precisa de propaganda na TV
Não gosto de gente que colhe onde não planta
E fujo de quem constrói sobre fundamento alheio
Não ando com gente oportunista que não me olha nos olhos
Não gosto de gente exibida que só fala em dinheiro
As coisas da alma me encantam muito mais


E sobre a volta de Cristo, que dizer?
Aqui a minha desconfiança vai ao máximo
Enfim, é tanta loucura, tanto rumor
Os sinais estão por toda parte - dizem
O fim dos tempos - gritam
Corre rápido na nossa direção
E dão sinais e apresentam provas


Fico desconfiado de todo esse falatório
Não entro nesse beco sem saída
Todo mundo que anunciou
A volta de Jesus, errou feio
Nesse negócio de falar 
Sobre a volta de Cristo
Prefiro errar para mais
Do que errar para menos
Como eu disse, todo mundo que anunciou
A sua volta imediata, quebrou a cara


Então, se alguém me pergunta
Se está perto ou longe 
A volta de Cristo
Digo que ele voltará
Daqui uns quinhentos anos
Ou talvez, daqui uns mil anos
Realmente, não me interesso por saber essas coisas
Fico perplexo com tanto profeta gritando datas
Seja como for, basta começar a falar em arrebatamento
Para eu ligar o meu desconfiômetro e pular fora
Esse negócio de datas, sinais e visões do fim
Arrebatamentos, tribulações e volta de Jesus
É um campo fértil demais para o surgimento de falsos profetas
A mania de anunciar a volta de Jesus - para ontem
É tão velha quanto a história dos falsos profetas
Nesse campo minado, todo cuidado é pouco
É muito fácil comprar gato por lebre...


Perplexo e desconfiado, vou vivendo os meus dias
Eu teria que estar morto, completamente morto
Para não me sentir perplexo diante de tanto rumores
Profetas, visões, sonhos e unções especiais


Seja como for, diante das perplexidades da vida
Deus é o meu único guia, alimento e luz


Todo dia, sem cessar, o tempo todo
Em todo lugar, na terra e no mar
Diante dos meus olhos perplexos
Às vezes tão cansados
Outras vezes
Tão decepcionados
As faces do mundo se descortinam
Frias, duras e assustadoras
Como a carranca de um leão
Que anda e urra ao redor
E me olham no fundo dos olhos


Mas eu não fixo os meus olhos
Nos olhos sombrios do mundo
Não é desse abismo sem fundo
Que eu tiro a minha esperança
Outra é a fonte das minhas esperanças


Eu fito meus olhos no céu
Contemplo a imensidão infinita
E a minha alma se deslumbra
Com a beleza das obras de Deus
O meu coração salta
A minha pele arrepia
Os meus lábios emudecem
Não há palavras, nem som
Além dos sons da natureza
Segura sob a sombra da mão de Deus
A minha alma descansa nas certezas da fé


De modo tão maravilhoso e assombroso
Vejo a noite cair e vejo o dia amanhecer
Sinto-me cúmplice da Criação
No fundo do meu coração
Onde demônio algum chega ou vê
Eu sei que para além desse tempo que vivemos agora
Para além das aparências caóticas do nosso mundo
Existe outro mundo que vem na nossa direção
Não sei quando esse novo mundo acontecerá
Pode ser daqui uns quinhentos anos, ou mais
Mas uma coisa eu sei, no fundo do meu coração, faz tempo
O encontro definitivo com essa maravilhosa realidade
Que ultrapassa todos os meus pensamentos e imaginação
Já aconteceu, e acontece novamente, todo dia, sem cessar


Sim, meu irmão, acredite, eu sei o que falo
É preciso ter um jardim florido na alma
Para não enlouquecer no meio do deserto


Para além da solidão do nosso tempo
Para além das perplexidades dessa vida
Eu aprendi a ver os portais da eternidade
Na solidão do meu coração, quando dúvidas atrozes
Se apresentam à minha alma
Ocasionalmente, nos dias de tentação
O meu coração é arrebatado por forças
Que eu nunca desconfiei possuir
E eu me rendo por completo ao chamado da fé
Perco-me nos caminhos da eternidade
Revigoro-me com os sons da esperança
Embalo-me na certeza de que as glórias do porvir
São maiores do que os sofrimentos o presente
Refaço as minhas forças e o meu coração se alegra
Vencida a perplexidade, ainda que temporariamente
Sigo em frente. Não levo bagagem, pesos ou fardos
Levo comigo apenas o que o dinheiro não pode comprar 
Amor, fé, esperança, e uma alegria especial, que não termina 
Nem mesmo quando as lágrimas sobem aos meus olhos
E as perplexidades da vida retornam ao meu coração


Seja como for, pelos caminhos da mente
E pelos caminhos tortuosos do coração
Às vezes em saber direito para onde estou indo
Outras vezes, sim, completamente perdido
Correndo, parando, caindo e levantando
Perplexo com tudo, eu vou seguindo
E no meio de todas as minhas perplexidades
Uma certeza e uma luz... Deus, e somente Deus
É o meu único guia confiável
De outro modo, com certeza absoluta
Eu me perderia e desapareceria para sempre
No reino das minhas perplexidades e desconfianças
_VBMello